Se você visitar as Filipinas à noite, pode ser que ouça alguém sussurrar a palavra alitaptap. Essa é a palavra em tagalo para vagalume. Ela soa leve e rápida, como pequenos toques de luz dançando no ar. Essa única palavra também é o nome do nosso site. Nós a escolhemos porque ela carrega uma longa história de encantamento humano. Muito antes de os cientistas estudarem como os besouros produzem luz, as pessoas já observavam os vagalumes flutuando sobre campos e rios. Elas inventavam músicas, mitos e nomes para explicar esses pisca-piscas na escuridão.
Nas Filipinas, um arquipélago com mais de sete mil ilhas no Sudeste Asiático, os vagalumes fazem parte das histórias locais há centenas de anos. O nome alitaptap tem uma ligação profunda com a terra e com as árvores onde esses insetos moram. Quando você olha para um insetinho brilhante no seu quintal, vê exatamente a mesma magia que inspirou antigos contadores de histórias do outro lado do oceano.
A lenda da estrela brilhante
Uma história famosa das Filipinas vem da região do Lago Taal e da província de Laguna. Conta a lenda que, há muito tempo, uma mulher muito bonita vivia no vale. O nome dela era Alitaptap. Dizem que ela tinha uma estrela brilhante e cintilante na testa, que reluzia como um pingo de luz da lua.
Segundo o mito, sua luz era tão forte que ajudava os agricultores a achar o caminho de casa na escuridão. Ela guiava os pescadores em lagos calmos quando a lua ficava escondida atrás de nuvens de tempestade. As pessoas do vale se sentiam seguras sempre que a estrela dela brilhava.
Mas a história fica triste, como costuma acontecer em muitos contos antigos. Um guerreiro poderoso quis obrigá-la a ajudá-lo a vencer uma guerra, mas ela se recusou a deixar sua luz ser usada para fazer o mal. Na briga, a estrela dela se despedaçou em milhares de fagulhas pequenininhas. Esses pedacinhos brilhantes se espalharam pelas árvores por todo o campo. A lenda diz que essas fagulhas viraram os primeiros vagalumes do mundo — os alitaptap.
Hoje nós sabemos que os vagalumes são, na verdade, besouros que nascem de ovos na terra úmida. Mesmo assim, essa história antiga mostra algo bem real sobre a humanidade. As pessoas sempre procuraram maneiras de explicar coisas que parecem fantásticas. Para as antigas famílias de agricultores, um insetinho voador que produz sua própria luz fria era uma verdadeira maravilha.
Árvores que brilham como cidades gigantes
Em algumas partes das Filipinas, hoje em dia, você pode ver um espetáculo que parece ter saído de um livro de fadas. Se você fizer um passeio de barco pelo rio Abatan, na ilha de Bohol, ou pelos rios de Donsol, a noite parece escuríssima no começo. Depois, seus olhos se acostumam. E aí você vê árvores inteiras de mangue iluminadas de cima a baixo.
Milhares de vagalumes se reúnem nas folhas de uma única árvore. Em vez de piscarem cada um no seu tempo, eles acendem e apagam todos ao mesmo tempo. Em um segundo, a árvore está no breu total. No segundo seguinte, cada folha brilha com uma luz suave, verde ou amarela. Parece uma árvore de Natal gigante flutuando sobre a água escura.
No folclore local, as pessoas costumavam acreditar que existiam espíritos morando nessas árvores brilhantes à beira do rio. Por causa dessa crença, todos tratavam as árvores com muito respeito. Elas evitavam derrubar a vegetação nesses lugares especiais perto da água. Sem saber, esse respeito antigo acabou protegendo a casa dos besouros. Os manguezais continuaram de pé, dando aos vagalumes um lugar seguro para viver e encontrar comida.
Nomes de vagalumes pelo mundo
As Filipinas não são o único lugar com palavras e lendas especiais para esses insetos. Em todo o planeta, os seres humanos criaram nomes inspirados no jeito que eles parecem ou se comportam.
Em inglês, eles são chamados de fireflies (moscas de fogo) ou lightning bugs (insetos-relâmpago). Os dois nomes descrevem o que a gente vê: bichinhos que parecem fogo ou piscam como pequenos raios. Em espanhol, os vagalumes costumam ser chamados de luciérnagas. Essa palavra vem do latim antigo e significa "portadora de luz" ou "guia brilhante". Lá em Quintana Roo, no México, as pessoas encontram um vagalume conhecido como Viajante do Trópico (Tropic Traveler). Esse nome faz a gente imaginar um pequeno viajante voando pelas noites quentes.
Nas culturas asiáticas, os vagalumes têm uma forte ligação com os estudos e com as noites calmas de verão. Em histórias antigas da China e do Japão, estudantes pobres que não podiam comprar óleo para as luminárias juntavam vagalumes em sacos de pano transparentes. Eles usavam a luz suave de dezenas de besourinhos para conseguir ler seus livros à noite.
Em Hong Kong, pesquisadores registraram há pouco tempo a presença de uma espécie chamada Pyrocoelia lunata nas trilhas da Floresta de Po Kau, em Tai Po Kau. O nome lunata vem da palavra lua, porque a luz desse vagalume brilha suavemente como uma lua crescente no chão da floresta.
Na Índia, observadores na cidade de Dehradun registraram recentemente um vagalume chamado Lamprigera yunnana. Esses são vagalumes gigantes! As fêmeas não têm asas completas, por isso ficam no chão e brilham como pedras preciosas verde-brilhantes escondidas nas folhas secas.
Já na Europa, as pessoas na França e na Inglaterra costumam ver o vagalume-europeu (European Glow-worm). Registros recentes vieram de Trégueux, na França, e da Cornualha, na Grã-Bretanha. No antigo folclore europeu, as pessoas que viam luzes brilhantes nas florestas escuras as chamavam de fogo-fátuo. Elas acreditavam que essas luzes eram espíritos travessos guiando os viajantes pelos caminhos da mata.
O que a ciência nos conta sobre o brilho
Hoje, os cientistas cidadãos usam aplicativos e mapas para registrar o que encontram. Nós não usamos mais a magia para explicar essa luz. Usamos a química e a biologia!
Sabemos que os vagalumes produzem luz por meio de um processo chamado bioluminescência. Na barriguinha do besouro, uma substância química chamada luciferina se mistura com o oxigênio e com uma enzima chamada luciferase. Quando elas se misturam, criam luz sem gerar calor. Uma lâmpada comum esquenta porque desperdiça energia. A luz do vagalume é quase cem por cento eficiente. Quase nenhuma energia é perdida em forma de calor. É por isso que um vagalume aceso nunca vai queimar a sua mão!
E por que eles piscam? Os piscas são uma verdadeira linguagem. Os vagalumes machos voam pelo ar e piscam em um padrão específico. Por exemplo, o vagalume-comum-do-leste (Common Eastern Firefly) — visto recentemente na Pensilvânia, em Nova York, na Carolina do Norte e em Ohio — faz um desenho de luz no ar com o formato da letra J.
As fêmeas ficam pousadas na grama, lá embaixo. Se uma fêmea vê o padrão de piscas de um macho da mesma espécie, ela pisca de volta. É como um código secreto da noite.
As larvas de vagalume, que são os filhotinhos, também brilham. Elas vivem na terra úmida, comendo caramujos e minhocas. O brilho delas funciona como um sinal de aviso para os predadores. A luz avisa aos sapos e passarinhos que aquela larva tem um gosto horrível!
Por que as histórias antigas ainda importam
Você pode estar se perguntando por que ainda falamos de lendas antigas se já temos a ciência de verdade.
O motivo é simples: as histórias nos mostram o quanto as pessoas se importam. Quando uma cultura dá um nome bonito a um inseto ou cria uma história sobre a sua luz, significa que aquele inseto é importante. E as pessoas protegem aquilo com que se importam.
Hoje, os vagalumes enfrentam grandes desafios no mundo todo. As cidades estão crescendo, o que significa que áreas naturais são cobertas por asfalto. Quando a terra úmida e as árvores desaparecem, as larvinhas perdem sua casa.
A poluição luminosa é outro grande problema. Postes de iluminação, luzes de varanda e faróis de carros enchem a noite de luz forte. Quando a noite fica clara demais, as fêmeas na grama não conseguem enxergar os sinais piscantes dos machos voando lá no alto. Se eles não se encontram, não conseguem botar ovos para criar a próxima geração.
Quando as pessoas do passado acreditavam que espíritos viviam em árvores brilhantes, elas deixavam essas árvores em paz. Hoje, nós sabemos que proteger as árvores e os lugares escuros ajuda os ecossistemas a continuarem saudáveis. A ciência nos ajuda a resolver problemas, mas as histórias nos lembram por que vale a pena salvar os vagalumes.
Fazendo parte da história do Alitaptap
Toda vez que você sai de casa em uma noite de verão e procura por luzes piscando, você se conecta a milhares de anos de história humana. Você observa os mesmos padrões brilhantes que inspiraram lendas nas Filipinas, poemas na Ásia e mitos na Europa.
Agora, você pode transformar todo esse encantamento em ajuda de verdade. Quando você registra uma observação no nosso mapa, você se torna um cientista cidadão.
Só nesta semana, pessoas no mundo inteiro compartilharam o que viram. Um observador em West Chester, na Pensilvânia, viu um vagalume-comum-do-leste no quintal. Alguém em Dehradun, na Índia, encontrou um gigante Lamprigera yunnana. Observadores em Hong Kong acharam a espécie Pyrocoelia lunata na floresta. Um observador no México viu um Viajante do Trópico.
Você não precisa de nenhum equipamento chique para participar. Só precisa dos seus olhos, de um lugar escuro e de alguns minutinhos de observação tranquila. Anote o horário, o local e o jeito que ele piscou. Depois, peça para um adulto ajudar você a colocar sua observação no mapa do Alitaptap. Ao compartilhar o que encontra, você ajuda os cientistas a acompanhar onde os vagalumes vivem e onde eles precisam de proteção. Você mantém essa luz acesa.
