O sol desce abaixo do horizonte e o céu muda de azul para um roxo bem escuro. Você está no quintal ou na varanda, esperando as primeiras estrelas furarem a penumbra. Esse passeio no fim do dia mostra como a noite muda e por que isso importa tanto para os vaga-lumes quanto para os cientistas que olham para a Via Láctea.
Ao pôr do sol, o ar ainda guarda o calor da tarde. Em lugares como a Hough Road em Bozrah, em Connecticut, ou na Park Drive em Muscatine, no Iowa, quem caminha por aí pode ver um vaga-lume de inverno no ar friozinho de outubro. A luz ainda dá para ler um livro. Dá para ver bem os galhos das árvores contra o céu. Os passarinhos se ajeitam e dão os últimos chiados antes de dormir.
Quando a noitinha chega, o mundo fica mais sossegado. O azul forte some do céu e vira um azul-marinho. É a hora em que as primeiras estrelas brilhantes aparecem. Longe das luzes da cidade, o céu se enche de pontinhos brancos. Mas, perto de ruas com postes e estacionamentos iluminados, o céu fica lavado. O brilho das luzes humanas bate na poeira do ar e forma uma névoa que esconde as estrelas fracas.
Essa perda da verdadeira escuridão não é ruim só para quem quer ver a Via Láctea. É um grande problema para os vaga-lumes. Eles precisam do contraste entre a noite escura e a própria bioluminescência, que é a química no corpo deles que faz luz fria. O clarão de um vaga-lume é bem fraquinho. Quando um vaga-lume europeu em um campo em St. Gilgen, na Áustria, tenta mandar um sinal, esse clarão precisa de um fundo escuro para aparecer. Luzes fortes agem como uma lanterna jogada direto nos seus olhos, apagando os sinais que esses insetos usam para conversar.
Mais tarde, a noite escura de verdade toma conta de tudo. Agora, as estrelas formam um rio de luz lá em cima. Em lugares bem escuros, dá para ver constelações e estrelas cadentes. Lá embaixo, essa escuridão é a hora dos bichos noturnos. Em lugares como Brasília, onde um Lucio blattinum pode estar ativo, ou no Oregon, onde um verme-luminoso da Califórnia anda no mato, a noite foi feita de sombras.
Vaga-lumes e bichos-da-seda não têm ouvidos como os nossos. Eles não cantam no escuro como os grilos ou os sapos. O mundo deles é todo visual. Eles usam clarões, brilhos constantes e piscadinhas para se achar, fugir de bichos maiores e andar por suas casas. Quando enchemos a noite com luzes de casas, postes e placas, viramos o ritmo da natureza de cabeça para baixo. Para um vaga-lume procurando um par, um estacionamento iluminado parece um labirinto de sinais confusos.
Cientistas que acompanham insetos em plataformas como Alitaptap e iNaturalist dizem que a luz artificial à noite é um dos problemas para os insetos no mundo todo. Quando a noite nunca fica escura, os vaga-lumes têm mais dificuldade para ter filhotes. Com o tempo, fica mais difícil para esses grupos viverem em bairros que deixam as luzes acesas até de manhã.
A boa notícia é que cuidar do céu noturno é mais fácil do que resolver outros problemas da natureza. Apagar a luz da varanda quando não precisar, usar luminárias que jogam a luz para baixo e apoiar regras de céus escuros na sua cidade ajuda a trazer as sombras de volta. Quando você devolve a noite para as estrelas, você também devolve a noite para os vaga-lumes.